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Independência do Brasil (O Grito do Ipiranga)

Independência do Brasil (O Grito do Ipiranga)

A história que vou contar hoje pode não ser muito agradável pois trata-se de uma desconstrução histórica de mentiras e não me sinto muito confortável em fazer isto, mas é preciso. Depois de anos de mentiras contadas e auras criadas com fundo positivista cabe a nós professores de História da atualidade darmos a nosso alunos uma triste verdade, mesmo com o desconforto que isso possa causar é importante pensarmos que não se constrói nada de bom sobre mentiras e manipulação da história e a tentativa de criarmos heróis nacionais a fórceps foi um erro histórico cometido por nosso governantes. Um trabalho histórico que contribuiu e muito para reescrevermos a história de nossa independência foi o livro de Laurentino Gomes intitulado “1822”. O quadro pintado pelo paraíbano Pedro Américo, intitulado O GRITO DO IPIRANGA, encomendado pela comissão de construção do monumento do Ipiranga em 1888 e completado em Florença, na Itália foi explicado da seguinte forma pelo autor “Um pintor de história deve restaurar com a linguagem da arte um acontecimento que não presenciou e que 'todos desejam contemplar revestido dos esplendores da imortalidade”...o problema é que a cena retratada criou um glamour em um fato que nada teve de glamouroso. Vamos aos fatos. D. Pedro, acompanhado de Francisco Gomes da Silva, o "Chalaça", seu secretário particular, Major Francisco de Castro Canto e Melo, (irmão da amante de D. Pedro e sua preferida, Domitila, futura Marquesa de Santos) e de outras personalidades, deixou o Rio a 13 de agosto de 1822, com destino a São Paulo, onde vinha intervir na complicada situação política reinante na província paulista. Após permanecer em São Paulo por 9 dias, D. Pedro seguiu para Santos, agora também na companhia do Cel. Manuel Marcondes de Oliveira e Melo. O comandante da guarda pessoal de D. Pedro era o secretário de Estado, Luiz de Saldanha da Gama (futuro Marques de Taubaté), que, entretanto, ficara em São Paulo, durante a viagem a Santos. Seu substituto, o Cel.Oliveira e Melo, barão de Pindamonhangaba, hospedara o príncipe na sua cidade, por ocasião da passagem da sua comitiva, a qual se integrou, e é dele os principais relatos acerca dos fatos, embora também sejam controversos. No dia 7 de setembro de 1822, durante toda a sua viagem de Santos para São Paulo, D. Pedro mantinha uma animada conversa com o padre Belchior que o acompanhava no trajeto. Já havíamos subido a serra, quando D.Pedro se queixou de ligeiras cólicas intestinais, oriundas provavelmente de um alimento estragado que havia comido em Santos, precisando por isso apear-se e empregar os "meios naturais" de aliviar seu sofrimento. D. Pedro não montava um cavalo garboso como no quadro de pedro Américo e sim, provavelmente uma mula, deverás teimosa, que nada contribuia para melhoras em sua dor de barriga. Chegando próximo ao riacho do Ipiranga, sendo aproximadamente 16:30, novamente a diarreia fez com que D. Pedro procurasse o arbusto mais próximo e alivia-se de seu infortúnio e mandou sus homens esperá-lo a uma distância de aproximadamente 600 metros. Seus acompanhantes, de longe, avistaram a chegada dos mensageiros Paulo Bregaro, oficial da Secretaria do Supremo Tribunal Militar e o Major Antonio Ramos Cordeiro, que, a mandado de José Bonifácio, vinham do Rio, procurando D.Pedro para lhe fazer a entrega de correspondência de ordens que o governo português lhe mandava. Às margens plácidas do Ipiranga, ouviu-se um gemido. O príncipe regente Dom Pedro I penava com sua disenteria intestinal. Após aliviar-se na macega, chegam às mãos do sofrido príncipe, cartas subscritas por Dona Maria Leopoldina, sua esposa, e pelo ministro José Bonifácio (o “Patriarca da Independência”), dando conta da ordem advinda da Corte em Lisboa determinando sua ida imediata para Portugal, sob pena de ser o Brasil alvo de uma investida militar por parte da coroa. “Independência ou morte!”, ou qualquer que tenha sido o brado retumbante, foi, antes de tudo, um clamor visceral, um urro intestino de nosso D. Pedro, em um péssimo dia. Não foi uma vociferação de valentia, gesto heroico de um belo príncipe, galantemente vestido, montando majestoso alazão. Foi um grito de basta de um regente fanfarrão, com vestes empoeiradas, sobre uma mula teimosa, estropiado pela cavalgada e pela disenteria. A cena não é poética, mas foi assim que a independência se fez. D. Pedro montava um animal de carga, provavelmente uma mula, estava vestido como um tropeiro e não em uniforme militar, e os dragões da Independência ainda não existiam. A guarda de honra era formada por fazendeiros, cavaleiros e pessoas comuns das cidades do Vale do Paraíba, por onde o príncipe passara alguns dias antes a caminho de São Paulo. Está é a a historiografia atual, sem necessidade de criarmos heróis ou glamorizar um fato com a intenção de criarmos heróis ou epopeias. Sejam quais forem as razões dessas mentiras históricas, espero, nesse 192º aniversário da nossa independência, que a história ensinada nas escolas tenha mais a ver com o que de fato aconteceu do que com o que gostaríamos que tivesse acontecido. E constato que, passados quase dois séculos, muito do que ocorre na política nacional ainda parece ser o resultado de dores de barriga dos nossos governantes. Hoje, o cansaço também é insuportável. Ninguém aguenta mais tanta roubalheira, tanta cara de pau, tantas desigualdades e tanto escárnio. O que falta, pois, a esta “brava gente brasileira”, para que proclame “Ou ficar a pátria livre / Ou morrer pelo Brasil”? O que falta para que nossa inconformidade se torne um grito e um gesto pela independência? Falta-nos, apenas, uma dor de barriga. Dor de barriga cívica, cidadã e moral. Independência ou morte! Porque dependência é morte e que o gigante desperte e jamais volte a dormir.

René Descartes e Blaise Pascal
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