quinta-feira , 18 julho 2024 - 17:07
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Mansa Musa I, o ser humano mais rico da história

Por J.Alaor

A revista Money e a Forbes, publicações que comumente mensuram fortunas em nosso planeta em suas publicações e exibem seus rankings atualizados anualmente de ricaços contemporâneos ousaram estampar o homem mais rico da história e pasmem, não foi nenhum dos barões do vale do silício como Bill Gates (~US$ 100 bilhões), Elon Musk (~US$ 180 bilhões) ou Jeff Bezos (~US$ 110 bilhões) e nem os gigantes do início do século XX , do sistema financeiro, os Rothschild (~US$ 300 bilhões) e industrial como John D. Rockfeller (~US$ 340 bilhões). Trata-se de um nobre africano do século XIV, cujo nome é Musa Keita I e assumiu o governo do Mali em 1312, numa época de prosperidade de diversos reinos africanos, que conforme estimativas atuais sua fortuna passaria dos US$ 450 bilhões de dólares.

Ao assumir o governo de Mali, ganhou o título de “Mansa” (que significa “Sultão”, ou para nós ocidentais é “rei”) e foi o responsável por expandir as riquezas do império, que se concentrava, sobretudo, em ouro e sal, produtos que na época estavam altamente valorizados. Boa parte do que era usado desses recursos na Europa, África e Oriente Médio vinha dos domínios de Musa. No auge, a extensão do império abrangia o atual território de Mali, Senegal, Gâmbia, Guiné, Níger, Nigéria, Chade e Mauritânia, na costa oeste da África, uma área de aproximadamente 1,2 milhão km2.

Mesmo sendo tão rico, quase todas as documentações históricas sobre o rei africano foram feitas devido a um acontecimento em específico, a grande peregrinação Hajj. A peregrinação a Meca é um dos cinco principais pilares do Islã, e Mansa Musa decidiu embarcar no Hajj em 1324-1325. Essa foi uma das maiores caravanas que já cruzaram o Saara, no total eram 60.000 peregrinos nessa comitiva, contando com Mansa Musa que estava a cavalo, precedido por 500 arautos com bengalas douradas e vestidos de seda fina, 8.000 cortesãos, 12.000 servos, além de 80 camelos carregando 136 quilos de ouro puro cada.

Imagem: Mapa mundia de los Creques

Comentaram que ele era muito generoso, tanto que em sua passagem pelo Cairo fazia tantas doações aos pobres que causava uma inflação massiva. Levou 12 anos até que a economia local se recuperasse.

A viagem fez com que a história de sua riqueza chegasse aos ouvidos dos europeus que vinham ver se o que estava sendo dito era verdade. Depois de confirmá-lo, o reino de Mali e seu rei foram incluídos no mapa mais importante da época: o Atlas catalão ou Mapamundi de los Cresques , que cobria o mundo conhecido pelos europeus no século XIV.

Sua chegada a Medina e depois a Meca foi uma sensação: distribuiu presentes aos peregrinos e aos populares de ambas as cidades. Em Meca, onde ficaram até depois do Hajj, aconteceu um fato um tanto incômodo: uma briga entre peregrinos malineses e peregrinos turcos irrompeu na Masjid al-Haram, ao que não tardou para espadas serem desembainhadas de ambos os lados; o pior só foi evitado com a intervenção do Mansa junto a seus súditos.

Durante sua volta, a caravana de Musa passou por dificuldades: o dinheiro já não era mais tanto, e muitos malineses de seu séquito morreram de frio e fome durante sua jornada de volta para o Cairo. Mais uma vez no Egito, o esbanjamento de Musa teve um fim: a fonte finalmente secou e Musa acabou ficando sem dinheiro. À beira da falência, Musa acabou se endividando com vários mercadores do Cairo, além de ter de revender muito do que compraram lá na sua primeira estadia de 3 meses. Al-Nasir Muhammad, no entanto, deu-lhe presents para “aliviar” sua situação e em retribuição à generosidade à sua primeira estadia no Cairo.

Os últimos anos do reinado de Musa foram marcados por um grande projeto de construção. A Mesquita de Sankore é o mais antigo dos três centros de aprendizado que compõem a Universidade de Timbuktu. Aqui ele aparece em um cartão postal do fotógrafo documental do século XIX François-Edmond Fortier.

Já em casa, ele construiu novas e grandes mesquitas em Gao e Timbuktu (que se tornou o coração de seu império e da África Ocidental), com muitas de suas construções ficando a encargo do famoso arquiteto e poeta andaluso Ishak al-Tuedjin (falecido em 1346), natural de Granada; Tuedjin viveria o resto de sua vida no Mali. Musa também construiu universidades, cada qual com um arsenal de livros trazidos da Arábia e Egito, além de escolas corânicas e khanqas (congregações) sufis, além de mandar pupilos malineses para Fez a fim de formarem-se como professores e atuarem nas escolas e madraças recém-criadas. Entre uma de suas notáveis construções está a Mesquita de Djingareyber, em Timbuktu.

Musa morreu e foi sucedido por seu filho, Mansa Maghan I, que havia sido regente enquanto seu pai estava na sua peregrinação dourada. O Mali ainda demoraria um bocado para declinar de fato, mas a dinastia dos Keitas, infelizmente, não conseguiu manter o “padrão de qualidade” de Musa, com seus sucessores efetuando governos não tão bons.

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