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Cultura de testes padronizados e a aprendizagem significativa

Por J.Alaor

Em uma escola de ensino fundamental da cidade de São Bento do Sul, onde trabalho, em pleno mês de novembro de 2023 acompanhei a chegada de avaliadores que iriam aplicar a prova SAEB (Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica) aos alunos que concluíam neste ano sua jornada de 9 anos no bancos escolares rumo ao ensino médio. Foi notório a mobilização das áreas de apoio nos meses anteriores, fazendo simulados, para tentar obter um índice que no ranking colocasse a escola em destaque e fizesse barulho na imprensa com dividendos políticos para os gestores do executivo junto à imprensa local. Avaliadores tiveram tratamento diferenciado com direito a cicerones e até certa tietagem contraproducente em sua chegada, já que se trata de uma verificação oficial já estabelecida pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), pois tinha café especial para os avaliadores e incentivos aos alunos para não faltarem, fator este, que traz deméritos ao índice final da escola. Toda essa mobilização se justifica, diante das amarras criadas ao teste, que influenciam até nos valores de repasse do Fundo Nacional da Educação Básica (FUNDEB) ao município.


Tirando todos os adereços e alegorias, em suma, trata-se da realidade de um modelo copiado de outros países que tem uma adesão obsessiva pelos chamados testes padronizados. Estes testes estabelecem os parâmetros de melhores escolas públicas, enquanto escolas particulares é facultativo a participação. Este índice condiciona a vida acadêmica de alunos das instituições avaliadas e de seus respectivos professores, logo, se exitoso é regalos e em caso de fracasso é condicionamento social e publicidade ruim para os envolvidos no processo, com estereótipos difíceis de se reverter a curto prazo.


A prova em si reflete uma modelo chamado Teoria de Resposta ao Item (TRI), utilizado em outros testes padronizados no Brasil, como o ENEM, onde a ênfase na educação básica é apenas Português e Matemática, como neste ano de 2023. Há muitos anos que o INEP promete incluir Ciências da natureza e Ciências humanas, mas isso ainda não foi efetivado. Logo a prova ainda se resume em verificação funcional de um estudante nos moldes do século XX, onde ciências é um assunto irrelevante na visão dos macro gestores do sistema educacional público brasileiro. Fica no notório o descaso como a preocupação é formar o operário padrão e não um cidadão em sua plenitude.


Em provas com TRI é comum acontecer isso: Elabora-se um enredo ou problemática onde projeta um questionamento dúbio nas alternativas baseado na presunção da ausência de conhecimento do avaliado ou na incapacidade de interpretação correta do enunciado, que em uma questão objetiva nesses moldes é corriqueiro ocorrer. Diante disso, podemos supor o resultado:


A -> ± 20 % de avaliados marcam como correta
B -> ± 10 % de avaliados marcam como correta
C -> ± 40 % de avaliados marcam como correta -> ESSA É A CORRETA
D -> ± 10 % de avaliados marcam como correta
E -> ± 20 % de avaliados marcam como correta

Nesse suposto exemplo, aproximadamente 60 por cento respondem incorretamente. Isso é considerado uma boa prova, pois avaliadores que elaboram testes no modelo TRI acreditam que um bom questionamento é onde o percentual de erros é maior que o de acertos, onde convenciona-se que isso seria indicador de uma boa pergunta. Mesmo esforçando-se para valorizar o grau de dificuldade de uma questão comparado à outra, fica questionável o mérito educacional do instrumento de avaliação.
Fica evidente que trata-se de uma fórmula que não vai privilegiar uma escola com um pé no século XXI, onde o desprezo à ciência e a verificação dos ganhos efetivos da experimentação foram esquecidos em detrimento de crer que testes, como estes, que deveriam ser ferramentas de avaliação comuns, mas acabaram tornando-se ferramentas de ensino na visão de gestores políticos e todo a atenção voltada para um resultado exitoso nesses índices que claramente não traduzem a efetividade no processo ensino-aprendizagem significativo.


Índices, marcadores e dados são fundamentais para gestores poderem redefinir os rumos a serem tomados, o que não podemos copiar nestes enlatados importados é a neurose imposta pelos testes padronizados, onde cria-se, atmosferas irreais que não refletem a realidade do cotidiano de nosso sistema educacional público e demeritam o aprender fazendo e o ensino das ciências que é crucial para o futuro de nossas crianças em nossa tempo, onde a educação não é mais uma preparação para a vida e sim a própria vida.


Nosso maior inimigo em sala de aula é o tédio, ocasionado por aulas onde os estudantes sentam-se estaticamente e passivamente em aulas expositivas sem muitos estímulos onde acredita-se que a apropriação de conhecimento poderá ser obtida teoricamente sem experimentação e bem distante do mundo real, onde o contexto é tratado muitas vezes como irrelevante.


O antídoto contra isso é prestigiarmos o ensino de ciências (naturais e humanas) em nossas escolas fundamentais públicas nos moldes das potências emergentes posterior a segunda guerra mundial que hoje detêm a tecnologia e know-how exportável à países carentes, como o nosso, que não fizeram o seu dever de casa ainda e não tiveram a percepção que isso é o presente e o futuro da humanidade.


Torna-se necessário uma dinâmica de aulas que privilegie o fazer de forma prática, sendo esse, uma real evidência de aprendizagem. Necessitamos estimular nossos estudantes a fugir da apatia sistemática instituída e trilhar o caminho de estimular o uso de sua criatividade e desenvolver o seu pensamento crítico.

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Desde 2008 mantenho este portal, que iniciou sendo um disseminador de informações e artigos voltados a área da mecânica e com o passar do tempo alterou seu formato diversas vezes, tornando-se uma plataforma educacional flexível  com ênfases em História (Que é a minha paixão) e trabalhos desenvolvidos na ampliação da cultura Maker no Brasil.

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